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A presença das mulheres na construção está se tornando cada vez maior. Apesar de ainda ser um setor dominado pelos homens, pesquisas evidenciam que a força de trabalho feminina aumenta a cada ano nos escritórios de engenharia civil e canteiros de obra do Brasil.

Felizmente, existem cada vez mais mulheres dispostas a enfrentar e vencer a desigualdade, o preconceito e o assédio. E também a derrubar mitos, como o de que o gênero feminino não tem vocação para as ciências exatas.

Segundo dados do Ministério do Trabalho e a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), entre 2002 e 2012, a participação das mulheres na construção civil cresceu 65%.

Como veremos, nos anos que se seguiram essa tendência se fortaleceu.

Mulheres nos cursos de Engenharia

Há cada vez mais jovens recém-saídas do Ensino Médio optando por ingressar em faculdades de Engenharia.

Entre 2003 e 2013, o número de mulheres nos cursos de Engenharia passou de 24.554 para 57.022. Trata-se de um crescimento de 132,2%. Esses números foram divulgados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em estudo para a Federação Nacional dos Engenheiros (FNE) (fonte: Crea-RS).

Em relação aos cursos de Engenharia Civil, dados do Censo da Educação Superior apontam que  o número de mulheres matriculadas aumentou de forma contínua desde 2007. Em 2015, as mulheres ocupavam 30,3% dessas vagas  (fonte: G1).

Mercado de trabalho

Mas como as engenheiras civis estão se inserindo no mercado de trabalho?

O gênero feminino ainda é minoria nos postos de trabalho do setor. Atualmente, são 86,3% de homens, ante 13,6% de mulheres, registrados no Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea).

Dos 273.491 profissionais de Engenharia Civil ativos no Confea, 53.960 são mulheres. Ou seja, apenas 19,7% do total.

Em 2015, elas ocupavam somente 26,9% das vagas na área (fonte: G1).

Além disso, a desigualdade de gênero na Engenharia Civil também afeta os salários. A remuneração dos homens continua sendo maior do que a das mulheres.

Em 2004 e 2003, os homens ganharam cerca de 33% a mais do que as mulheres na construção – e isso no mesmo cargo. Essa informação foi revelada na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), sobre o rendimento médio mensal entre homens e mulheres com carteira assinada (fonte: Jornal Hoje).

Entretanto, espera-se que, com a conscientização da sociedade e a consolidação da presença feminina no setor, essa disparidade desapareça com o tempo.

Modernização

A presença feminina não está crescendo somente nos cursos e escritórios de Engenharia Civil. Aos poucos, elas também estão ocupando os canteiros de obra do Brasil, onde são reconhecidas por serem cuidadosas, perfeccionistas e responsáveis.

Alguns fatores incentivaram essa mudança cultural. Entre eles, estão o aporte de novas tecnologias para a construção e as iniciativas do poder público e do terceiro setor.

Mulheres na construção – canteiro de obras

O trabalho na construção civil costuma exigir intenso esforço físico. Assim, as diferenças fisiológicas entre homens e mulheres são uma das causas para afastar as mulheres dos canteiros de obra.

Em média, as mulheres possuem cerca de 52% da força dos homens na parte superior do corpo e 66% na parte inferior (fonte: PubMed). Por isso, existem normas que incluem garantias para a saúde e segurança das trabalhadoras no canteiro de obras.

Uma delas é a  Norma Regulamentadora (NR) 17, que trata da ergonomia na construção civil. Seu item 17.2.5 determina que as mulheres devem carregar peso máximo inferior àquele admitido para os homens.

Contudo, a chegada de novas tecnologias na construção civil está mudando os processos de trabalho. Agora, muitas tarefas “pesadas” passaram a ser executadas por máquinas. Como exemplo, podemos citar a grua, utilizada para elevação e a movimentação de cargas e materiais pesados.

Além disso, os materiais estão se tornando cada vez mais leves e fabricados em formatos pré-moldados. Isso facilita os procedimentos de montagem e instalação, estimulando a contratação de mulheres na construção.

Transformações no setor

Com podemos perceber, a construção civil está atravessando uma grande transformação deflagrada pelas novas tecnologias. Ainda que o setor seja o segundo mais lento em absorver inovações, os impactos da revolução digital já podem ser sentidos.

Por um lado, a chegada de equipamentos e produtos de ponta ao canteiro de obras aumenta a economia e produtividade. Por outro, atrai o fantasma do desemprego, já que a indústria vem absorvendo com rapidez máquinas capazes de substituir a mão de obra humana. Quanto mais automação, menos necessidade de pessoas.

Neste cenário de mudanças, a capacidade de executar tarefas que requerem apuro técnico e atenção aos detalhes está sendo cada vez mais valorizada. E o talento das mulheres nesse âmbito é reconhecido pela indústria.

Assim, elas estão sendo cada vez mais requisitadas para pintura, instalações elétricas, hidráulico-sanitárias, serralheria, marcenaria, restauração e acabamento. Suas habilidades incluem colocação de gesso, aplicação de cerâmica, assentamento de tijolos, bem como chapisco, emboço e reboco.

Incentivos

Existem vários projetos no Brasil para qualificar a mão de obra feminina na construção civil.

Em 2012, o Governo Federal criou o Programa Mulheres Construindo Autonomia na Construção Civil, com o propósito de formar mulheres de baixa renda para a inserção nesse mercado. A intenção foi absorver a mão obra feminina nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Programa Minha Casa Minha Vida.

Nos últimos anos, outras parcerias foram firmadas entre o Governo Federal e prefeituras para capacitar as mulheres na construção civil.

Terceiro setor

O terceiro setor também vem se articulando para estimular o ingresso das mulheres na construção. Das iniciativas existentes, destacam-se o projeto Mão na Massa, no Rio de Janeiro, e a ONG Mulheres em Construção, no Rio Grande do Sul.

Essas propostas têm o objetivo de oferecer cursos de formação na área da construção civil para mulheres. Assim, contribuem para promover sua autonomia e empoderamento. Entre as beneficiadas, estão principalmente aquelas mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica e de violência doméstica.

Segundo a ONG Mulheres em Construção, ao terminarem a capacitação, 32% das graduadas ingressam no mercado em regime formal. Por sua vez, 28% trabalham de forma autônoma. Com carteira assinada, elas ganham até R$ 1 mil ao mês. Trabalhando de forma autônoma, chegam a ganhar R$ 1.500,00 por semana.

As mulheres estão conquistando seu espaço em um ambiente predominantemente masculino como é o da construção civil. Ainda assim, estão longe de vencer a desigualdade de gênero. Porém a capacidade e mobilização delas vêm promovendo progressivas mudanças culturais que impulsionam seu progresso no setor.

Via Sienge